Milão: parte IV
Acredito que minha estada em Milão não tenha sido muito agradável por vários motivos, estritamente pessoais. O primeiro deles foi que eu não consegui usar, de forma alguma, o telefone público de lá. Então, não consegui ligar para casa.
Maior que o desespero de não conseguir ligar para casa foi saber que em casa, todos estavam angustiados, esperando notícias minhas. E isso foi exatamente o que não me deixou em paz em Milão.
O mais interessante foi que quando pedi ajuda a mesma senhora que me vendeu o cartão, ela me respondeu: “se você não sabe, imagine eu” e se virou para atender o próximo cliente.
Então, sim, minha estada em Milão não foi das melhores. O clima nublado também não colaborava muito.
Portanto, quando cheguei ao topo do Duomo, foi um momento de reflexão.

Eu observei as pessoas, o que estava a minha volta… muitas coisas passaram pela minha cabeça. Entre elas o fato de que eu estava onde sempre quis estar, mas talvez não onde eu queria estar naquele momento.
… ah?
Foi quando eu questionei pela primeira vez a decisão que eu tinha tomado, aquela mesma da qual eu tinha tanta certeza.
Ainda assim, não quis deixar que isso me perturbasse e apenas aproveitei o momento. Quando estava descendo as escadas, olhei para o lado de fora e observei a praça:

Nesse momento, todos os medos, pertubações e incertezas foram embora, e somente uma coisa passava pela minha cabeça:
“… è Milano, con i suoi 1.000 dialetti
Con le settimane lunghe e con gli uffici
Con le abbronzature a 100.000 watt
E con la vita appesa a 1.000 sacrifici
In un albergo verso il centro ci sto io
E una finestra che s’affaccia sul cemento
Mentre festeggio un anno di malinconia
Con la chitarra per dividere il momento
Anche qui…
Può arrivare l’odore del mare a prendermi”
Hoje paro para analisar e vejo o quanto eu me identifico com a letra de Milano de Alex Britti. Já comentei que ela é uma das músicas mais lindas e foi também uma música que me acompanhou muito por toda minha viagem.
Quando eu voltei para o hotel naquele sábado, eu chorei.
Chorei muito.
Tudo aquilo que eu mais queria na vida, a viagem que eu mais esperei… nada mais fazia sentido. E a tristeza tomou conta de mim. Neste momento, eu apenas rezei.
Talvez no fundo, no fundo, tenha pedido ardentemente que Deus mantivesse minha sanidade mental nos próximos 30 dias. Mas as palavras que realmente saíram da minha boca foi que minha impressão de Florença fosse diferente e que afastasse de mim todas as pessoas de coração impuro…
Enquanto preparava os posts sobre Milão, vejo que minha opinião sobre a cidade mudou. Talvez hoje, com mais calma, eu poderia curtir mais a cidade. Naquele momento, nada deu muito certo, eu tive muito medo e insegurança. Mas agora, vejo que Milão também pode oferecer coisas boas.
Talvez o momento que eu vivi não colaborou para que eu pudesse realmente apreciá-las…
“… anche qui, può arrivare l’odore del mare a prendermi…”
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PS.: para quem perdeu, clique aqui para ler a parte I, a parte II e a parte III.